Texto:
Dalila Teles Veras
Escritora
Tirando-se a história antiga do grafite, que se confunde com
muralismo, cujos registros conhecidos vêm lá da Grécia antiga
e de Pompéia, o começo daquilo que poderia ser classificado
como movimento de grafite no Século XX, teve suas raízes plantadas
no grafite-mensagem, ou caligrafite, a idéia sem preocupação
com a forma, ou seja, a mensagem filosófica, nos muros da Sorbonne
("Seja realista: exija o impossível") em 1968.
A sua repercussão, está claro, foi planetária. Migrou, poucos
anos depois, para o metrô de N.Y., também resultando das grandes
tensões sociais e étnicas, mas assimilando as cores locais e
assumindo outras características. No Brasil, não foi diferente.
Ainda em 1968, timidamente (não podemos nos esquecer que eram
esses anos de chumbo em nosso país) os estudantes usam os muros
da Rua Maria Antonia e da zona urbana da cidade, como meio para
mensagens de cunho político, quase cifradas, mas o caligrafite
viria mesmo eclodir por aqui bem mais tarde, lá pelo final dos
anos 70, não só com palavras de ordem política contra a ditadura,
mas também com recados amorosos, provérbios bem humorados, compondo
um verdadeiro balaio mural.
Como sempre, a imensa capacidade do brasileiro em amalgamar
culturas: o muro como suporte e objeto de protesto, assimilando
a forma-mensagem francesa e a forma-plástica americana. Walter
Silveira, o pioneiro, viu o seu emblemático ideograma verbal
HENDRIX/MANDRAKE/MANDRIX, em 1978 (3) causar interesse de vários
periódicos que o publicaram e, logo depois, uma legião de seguidores
a fazer uso do muro para a sua manifestação poética (em geral,
amorosa). Nessa fase jurássica brasileira, a prática não distinguia
grafite de pichação, esta última sempre com uma carga negativa
e pejorativa de vandalismo, emporcalhamento e de poluição visual.
Apesar disso, percebemos que há estudiosos que não fazem distinção
entre ambos, e fazem questão de usar o termo "grafito" ao se
referirem a essas manifestações nos muros, sejam elas com letras,
palavras, ou desenhos, vale, aqui, o suporte, independemente
do conteúdo da mensagem. Prevalece, no entanto, na sua imensa
maioria, o termo pichação para expressões de pessoas sem formação
artística e que se valem dessa maneira de protesto para, simplesmente,
deixar o seu próprio nome, ou de sua gang registrado, com o
único propósito de demarcar território ou até por simples ânsias
de identidade.
Da pichação ao chamado grafite universitário, praticado no começo
dos anos 80 por estudantes de artes ou arquitetura, cujo pioneirismo
em São Paulo é creditado a Alex Vallauri, dá-se um salto não
só estético como também de conteúdo social. Faz escola, ganha
admiradores e rivais. É nesse contexto de efervescência que,
vindo do Grande ABC, chega à Capital, Edvaldo Luiz Alvares,
ou simplesmente o Vado, ou ainda Vado do Cachimbo, como é conhecido
artisticamente, com ânsias de colorir o mundo.
Diversamente da maioria dos grafiteiros mais notáveis da época
que, em atitude de dessacralização da arte, saíam das galerias
para as ruas, Vado constrói um caminho inverso, partindo das
ruas e de uma arte solitária e primitiva para as galerias. Antes,
quando conhece Maurício Villaça e passa a integrar o grupo Art
Brut, Vado já ia além dos desenhos ready-made, praticados pelos
grupos paulistas nos muros da cidade e criava seus próprios
personagens.
A partir de A Cátiana, surgida desde o início de sua carreira,
quando era tido pela crítica como primitivista e ganhava prêmios
nessa categoria, ele vinha trabalhando com bonecos-personagens.
Esse trabalho personalíssimo chama a atenção de Alex Vallauri
que o convida a colaborar com seu grupo. É quando Vado passa
a utilizar-se de máscaras, ferramentas próprias do grafite,
bem como a sofisticar e aprimorar esteticamente essa galeria
de personagens que ele veio a denominar de "família dos ACs",
desenhos que ele continuou apurando até que esse trabalho ficasse
definido como um estilo que passou a ser a sua marca.
"Um conjunto de fantoches aparentados pela fisionomia e pela
silhueta: todos sorridentes, todos delineados por um cerne preto
que apresenta a particularidade de ser "espinhoso" (...) Todos
os ACs têm uma flor na mão, mensagem otimista de amor e fé na
vida. (...) uma linguagem muito pessoal que transcende os meios
de expressão: situando-se entre a caricatura e o grafite. Vado
inventa um mundo coerente onde a ternura disputa com a crueldade,
envolvente tanto pelas qualidades plásticas e cromáticas quanto
pelas conotações evocadas pelos estranhos homenzinhos" como
bem o definiu a crítica de arte e pesquisadora Josette Balsa,
num texto para um catálogo de exposição, em 1985.
É de se notar que as cores desses trabalhos de Vado são de uma
alegria contagiante, imagens carregadas de símbolos, muitos
símbolos, pura alegoria e invenção. Em 1987, a convite de Vallauri,
Vado participa da Bienal Nacional de São Paulo "A Trama do Gosto"
e da primeira grafitagem à luz do dia, no buraco da Av. Paulista,
além da execução do cenário da peça de teatro "A Rainha do Frango
Assado", criada por Vallauri. Isso o insere no contexto de um
grupo de vanguarda de São Paulo que chama a atenção da mídia
e chega a ser capa da revista Veja e objeto de grandes matérias
em outros veículos de grande circulação.
A arte que tem como moldura a própria cidade, a arte noturna
e marginal, não só é aceita, como também é elevada ao status
das grandes mostras. A arte de pintar muros com arte desmantelou
alguns conceitos, inclusive, ampliar o próprio conceito de suporte
(seria um não-conceito?), da cidade como moldura, uma não-arte
ou, ainda, a arte de volta às suas próprias origens (das raízes
nas paredes das cavernas e junto à comunidade). A idéia de um
projeto de contar a trajetória da obra de Vado através de seus
próprios desenhos e da poesia de poetas convidados não é nova,
mas só veio a ganhar forma recentemente.
Em 1992, convidei o Vado para fazer a capa do número 6 da revista
Livrespaço, da qual eu era uma das editoras, e ele manifestou
o desejo de vir a compartilhar um livro de seus grafites com
poetas, um diálogo entre seus desenhos e os poemas. Achei a
idéia fascinante mas o projeto não vingou e nos distanciamos.
Alguns anos depois, torno a reencontrar o Vado e lá volta a
idéia do projeto para, finalmente em 2001, durante uma gravação
para o programa de TV Mural do Artista, comandado por Vado para
o Canal Local ABC 3 Canbras/TVA, surgiu novamente a pergunta:
e o nosso projeto do grafite & poesia? Achei que estava mais
do que na hora de colocá-lo em prática.
Na verdade, a idéia era de que o próprio Vado escrevesse a sua
trajetória artística, uma espécie de Itinerário de Pasárgada,
como fez o poeta Manoel, e que os poetas e as fotos de seus
trabalhos ocupassem as outras páginas do livro. Porém, ele confessou-me
que não levava jeito para isso, que detestava escrever, tinha
preguiça, e o que ele queria mesmo era uma intervenção poética
nos seus trabalhos de grafite e que, ao lado das fotos, isso
constituísse a sua história artística.
Foi então que surgiu a idéia da entrevista, ou seja, o artista
"oralizado" por ele mesmo. O entusiasmo desta vez não deixou
que o projeto voltasse para a gaveta. Dias depois, lá estava
eu mergulhada no imenso arquivo do artista, com as incontáveis
reportagens publicadas em jornais e revistas de grande circulação
sobre as suas atividades artísticas, além de fotos, convites
e catálogos, material que fui anotando e que me serviu de roteiro
para as perguntas que, dia seguinte, gravador em punho, passei
a formular ao artista.
Foram seis horas de gravação e muitas outras de conversa, anotações,
correções. À medida que a entrevista ia sendo transcrita, era
conferida em conjunto com o autor para, novamente, acrescer
novas perguntas. Todo esse trabalho foi elaborado de forma bastante
prazerosa. As descobertas foram surgindo, as leituras paralelas
para entender esse fenômeno tipicamente urbano do grafite, arte
que foi dos muros para as galerias e bienais e, mais do que
tudo, compreender esse artista singular, primitivo quase, com
uma incrível e visceral capacidade criativa, verdadeiro motor
movido a tintas, spray e cores.
Projeto em caminho, passamos à fase dos convites aos poetas.
Foram enviadas cerca de 6 fotos de trabalhos de Vado a cada
um dos 11 poetas por mim convidados, desafiando-os a criar poemas
que interferissem e dialogassem com aqueles trabalhos. Não houve
determinação prévia de número de poemas. Assim, poetas como
Milton Andrade, comparecem com apenas um poema e outros, mais
pródigos, criaram vários.
A única exceção ficou com Renato Brancatelli que, também praticante
da arte do spray, chegou a cruzar caminhos com Vado, tirou lá
do fundo do baú, dois poemas feitos no calor da hora dos anos
80. Nada mais adequado. Aliás, Renato Brancatelli foi o último
a ser convidado (culpa minha que não havia lembrado da sua faceta
de poeta) mas não deixou por menos, colocou à minha disposição
seu arquivo bibliográfico sobre grafite, inclusive um trabalho
acadêmico de sua autoria, apresentado em 1980, quando cursava
o curso de Belas Artes e no qual ele afirma entender o grafite
como uma continuidade da pintura mural, sobre a qual faz uma
grande digressão e muito me ajudou a compreender alguns aspectos
da trajetória dessa arte ainda hoje considerada marginal.
O livro está pronto à espera de alguma editora ou de uma mecenas
que possa bancar sua edição. Além da entrevista com Vado, 12
vozes poéticas (a minha incluída) a intervir, penetrar no risco
e correr o risco, poetizar com a palavra as imagens que já nasceram
poéticas. Mais rápido que a impressão em papel, o meio virtual
traz, antes, a obra de Vado a um público maior e mais atento
do que aquele, apressado, que outrora apreciou seus grafites
nos muros da cidade, imagens tatuadas no corpo da cidade e que,
agora, ocupam paredes virtuais, de infinitos caminhos e possibilidades.
Nada mais justo do que essas homenagens ao artista Edvaldo Luíz
Alvares, o Vado do Cachimbo, o poeta da cor e da cidade.